terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A metade que desconheço

Sentou-se na cama com os pés para fora desta, de maneira que não tocassem o chão, tudo de maneira silênciosa, com o olhar baixo. Pôs-se a balançar as pernas de maneira suave, ficou nisso por um tempo, até que um impulso tomado por um certo constrangimento a fez ajeitar o corpo e os braços num movimento que fez parecer que iria se levantar de onde estava, mas não, usou essa posição para se apoiar, levantou a cabeça com o intuito de encontrar olhares e começou a falar.
- Gosto de me assentar assim, dá a impressão de que não cresci. Pra falar mesmo a verdade, esse modo de assentar faz com que me sinta livre. Sabe, eu sei que você sabe, eu sou mais razão. Posso sentir, falar, desejar, mas nunca ajo. No final é com os pés no chão que eu me faço na vida. E nessas horas, quando meus pés não tocam o chão, sinto que posso tudo, sinto que posso burlar meu consciente e agir com meus sentimentos. Por eu nunca ser assim, acho que gosto desta sensação de liberdade.
Um sorriso leve e meio sem graça apareceu em seu rosto, enquanto falava foi tomada por uma emoção, a qual não compreendeu. Fez-se silêncio. Agora, com o olhar centrado no outro olhar voltou a falar, um tanto sem graça.
- Você sabe demais sobre mim.
- E isso é ruim?
- Com você é diferente. (silêncio) Você está numa parte de mim onde eu, razão, não tenho muito controle. Você sabe demais. Eu quis que você soubesse e agora acho que tenho medo do que isso possa significar.
- E o que isso poderia significar?
- Você está numa parte de mim onde eu jamais entrei. Eu quis que você entrasse. O controle não é mais meu.
- Quer que eu saia?
- Quis que entrasse, mas nao sei como se volta, não conheço onde está.
- Então quer que eu vá.
- Não. Quero dizer, não sei.

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