sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Às vezes um cliché pede pra ser dito

Minha vó sobre o meu vô diz: "Depois de algum tempo, não tem beijos e muito menos sexo. O que sobra é o companheirismo, alguém do seu lado que ouve suas reclamações e que até reclama ao seu lado, mais do que você inclusive. Alguém que pega seu dinheiro sem dar satisfações, até porque você nem precisa mais de satisfações e você também sabe onde está o dinheiro e tem a liberdade de pegar o quanto quiser pra pagar por um sorvete ou uma geladeira nova. Depois de tanta coisa que os dois viram, cerimônias não existem mais, fala-se tudo na cara. - Você vai vestida assim?; Cadê minha camisa?; Espera que eu tô falando!; Voce vai comprar o de limão? Eu não gosto de limão, você sabe. Prefiro o de maracujá!; Seu cabelo tá ridículo!; Tô com sono, vamos embora?; Pode falar, eu tô no banheiro cagando, mas tô te ouvindo - e por aí se vão. É a mania de limpeza que não irrita mais, o arroz quimado que é divino, o molho branco super salgado que é perfeito, as roupas com manchas estranhas que são limpas sem problemas, falar da nova loira do tcham que é mais gostosa que a antiga ou falar que o Antônio Fagundes é um pão não afeta nem um pouco o longo relacionamento . No final, minha neta, hormônios sobem, hormônios descem, crises econômicas, pessoais, mundias vão e vem, mas o dinheiro da aposentadoria é meticulosamente separado pra uma viagem no final do ano pra Caldas Novas, pra ficarmos juntos, com alguns outros queridos também, mesmo sem sexo, mas com carinho, muito carinho e amizade."
Eu sobre a Flor digo: Quando a gente se tornou um casal?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ainda que oxidado, pulsante

Senti pelas faces os silvos fugaces dos ventos que amei

Dize-me o que sentes em teu quarto solitário, quando a lua cheia te visita e que tens apagada a tua lâmpada, e eu te direi a tua idade e saberei se tu és feliz.

Amiel, Diário Íntimo (Ediouro, pg. 259)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Farinha do mesmo saco na presidência

11/12/2010
às 0:00 \ Na revista

Meu adeus como colunista

“VEJA é uma Ferrari. Para poder me livrar do dilmismo, estou pronto a ceder minha vaga na escuderia. O que eu quero, neste momento, é pilotar um kart. De agora em diante, escreverei apenas um artigo mensal para VEJA”
Esta é minha última coluna.
Eu passei oito anos zombando do lulismo. Se agora eu passasse a zombar do dilmismo, que é uma mera pantomima do lulismo, eu me tornaria uma mera pantomima de mim mesmo.
— Diogo é um Arlecchino! Diogo é um Pantalone! Diogo é uma Colombina!
O lulismo queria que eu fosse embora do Brasil. Eu fui. O lulismo queria que eu me desinteressasse do presidente da República. Eu me desinteressei. O lulismo queria que eu renunciasse à minha coluna. Eu renunciei. Eu sou igual a um marido que, para poder se livrar da mulher amarga e rancorosa, cede todos os seus bens e vai morar num flat. Eu fui morar num flat mental. Eu fui morar numa kitchenette existencial. Eu sei que o lulismo está feliz de se separar de mim, mas garanto que eu estou incomparavelmente mais feliz de me separar dele.
Rubens Barrichello compreendeu a natureza do dilmismo. Quando lhe perguntaram o nome da presidente eleita, ele respondeu sabiamente:
— Como é que se chama a mulher?
A partir de hoje, esse é meu lema. Eu posso falar sobre Bartolomeo Bon. Eu posso falar sobre Anco Marcio. Eu posso falar sobre Cosmè Tura. Quem mais? Eu posso falar sobre Sexto Empirico. Eu posso falar sobre Pavel Chichikov. Eu posso falar sobre Pepe Le Pew. Só a presidente eleita está proibida de entrar em meu flat mental. Sobre ela, minha resposta será sempre a mesma:
— Como é que se chama a mulher?
Além de compreender a natureza do dilmismo, Rubens Barrichello compreendeu também a natureza do automobilismo. Ele demonstrou que, se é para guiar devagar, ninguém precisa de uma Ferrari. VEJA é uma Ferrari. Para poder me livrar do dilmismo, estou pronto a ceder minha vaga na escuderia. O que eu quero, neste momento, é pilotar um kart. De agora em diante, escreverei apenas um artigo mensal para VEJA. Renuncio à coluna, portanto, mas continuo aqui, em marcha lenta. Milan Kundera disse que quem anda devagar contempla as “janelas de Deus”. Rubens Barrichello anda devagar e contempla as janelas de Deus. Sou bem mais modesto do que ele. Para mim, basta poder contemplar as janelas da minha kitchenette existencial.
O primeiro ato de um espetáculo grotesco, como aquele encenado pelo lulismo até 2006, pode despertar algum interesse. O segundo ato é inevitavelmente mais sonolento. Mas é o terceiro e último ato, repetindo as mesmas galhofas dos anteriores, que realmente entedia e aporrinha o espectador. Foi para poupar o público desse constrangimento que resolvi sair do palco.
— Onde está o Arlecchino? Onde está o Pantalone? Onde está a Colombina?
(Um espectador aplaude. Outro atira um tomate. Outro ronca. Luzes.)"

Por Diogo Mainardi

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sobre a indiferença

A terceira dimensão do amor de Freud é o reconhecimento do oposto tanto do amor quanto do ódio: a indiferença. Se você é indiferente a alguém ou alguma coisa, não faz nenhum investimento emocional nele ou nela. Sem emoções investidas, não se pode amar nem odiar. Isso lhe permite exercer a razão imparcial, o que é útil na maioria dos casos. Também constitui a base do estoicismo, cuja idéia condutora é não supervalorizar nada que possa lhe ser tirado pelos outros, pois ao fazê-lo você se coloca sob o poder deles. Se fica apegado demais a pessoas ou coisas, está criando problemas para si mesmo. A indiferença às circunstâncias pode ser boa, ainda mais quando as circunstâncias são más. É o que todos chamam de entender as coisas filosoficamente ou estoicamente. Esse tipo de indiferença não é insensibilidade nem falta de compaixão. É a capacidade de não entender as coisas de forma excessivamente pessoal, mesmo quando parecem envolver sua pessoa. É mais como ficar frio durante o tiroteio. Permite-lhe agir da melhor maneira possível sob estresse.

Assim, do lado benéfico, a indiferença impede que você sofra de apego negativo a alguma coisa. No entanto, a indiferença também faz com que você não possa sentir o prazer do apego positivo a alguma coisa. Se passar a vida tentando ser indiferente às pessoas e coisas para poupar-se de mal-estar, estará se privando de envolvimento e satisfação. Também pode ser como uma pedra na floresta: cercada por todo tipo de ser vivo e exposta a todo tipo de mudanças naturais e estações, mas incapaz de relacionar-se organicamente com qualquer deles.

Lou Marinoff, Pergunte a Platão (Record), pg. 188.