terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Acaba-se assim

Nunca se apaixone por uma coisa selvagem, Sr. Bell – Holly aconselhou-lhe. – E foi esse o erro de Doc. Ele estava sempre abrigando coisas selvagens em casa. Um gavião com a asa ferida. Uma vez um puma crescido com a pata quebrada. Mas você não pode entregar o coração a coisas selvagens: quanto mais você dá, mais fortes ficam. Até que ficam bastante fortes para correr para o mato. Ou voar para uma árvore. Então uma árvore maior. Então o céu. É assim que se termina, Sr. Bell. Se a gente se deixa amar uma coisa selvagem. Acaba-se olhando para o céu.

Truman Capote, pg. 156, Histórias Maravilhosas, (Nova Fronteira)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sinestésico como os sentimentos

-Moça, eu procuro um perfume suave, inconfundível, é o cheiro de um alguém que eu conheço. Sabe, antes de chegar até aqui, eu passei na frente da M.M. Mirtin, o cheiro de lá me lembrou o perfume desse alguém. Fiquei parada durante algum tempo na porta daquela loja, estática, sem me mover, sem atitude para continuar andando ou adentrar, só conseguia pensar no perfume. Quero o mesmo cheiro pra mim.
- Nós temos aqui uns muito bons, são da nova linha. Esse, por exemplo tem um design exclusivo. Tome, cheire.
- Não, este é extremamentre doce e forte.
- Este é exclusividade, é com essência de lírios, e possui ferormônios atrativos.
- É bom. Mas não quero ser polinizada. Procuro um aroma simples, o mesmo da M.M. Martim. É bom, aconchegante.
- Experimente este então, tem saído muito da loja, todos gostam bastante.
- É, tem o cheiro das pessoas. Mas acho que você ainda não compreendeu. As coisas do coração. Esse cheiro que te falei tem a ver com as coisas do meu coração.
- Vou te deixar à vontade então. Qualquer coisa me chame. Meu nome é Marluce.
- Tudo bem.
- E então? Dos que você experimentou nesse tempo, conseguiu encontrar o perfume que tanto quer?
- Não. Nenhum.
- Por que você não pergunta pra essa tal pessoa qual perfume ela usa?
- Não teria a menor graça. O bom é chegar aos lugares e por um mínimo estímulo repentino perceber semelhança nos cheiros e procurar outros lugares onde essa sensação possa se repetir. Seria como fazer palavras cruzadas e olhar todas as respostas no final da revistinha. O encanto está em não saber descrever algo que se faz perpetuar em nossas mentes. Não precisar da razão pra seguir as pistas desse algo misterioso. Perceber a sinestesia do cheiro, como se você pudesse vê-lo, tocá-lo, prová-lo, ouvi-lo e cheirá-lo, inclusive. Mas tomei demais o seu tempo. Adeus.
- Adeus. Ah, se você descobrir qual fragrância procura, volte. Às vezes teremos o que procura.
- Obrigada, mas não descobrirei, e nem vocês terão o que procuro. Adeus.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Era engano!

Para Al…

Não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.

algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.

mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã

a coloque pagando 30 por um.

tenho que pensar na morte mais e mais

senilidade

muletas

poltronas

escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando

quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.

não se preocupe com rejeições, parceiro.

fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.

o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.

Charles Bukowski, do poema “para Al…”, no livro “O amor é um cão dos diabos” (L&PM), pg. 89.

Gostaria agora de estar completamente embriagada, dar de ombros e seguir os conselhoes de Baudelaire e seguir dizendo: embriagai-vos!- de tudo! Deixar que o memento do pretérito tomasse conta de meu ser, completamente, me deixasse sem atitude, ou melhor, que fosse minha atitude, para assim poder me esvaziar de tudo aquilo que me recorda o vazio do não ter.

Era engano! Não se preocupe parceiro, as migalhas de felicidade dos instantes colecionados fazem o tempo oxidar, junto às suas feridas. Não se preocupe parceiro, somos irmãos da mesma dor, compartilhamos o sentimento da frustraçao que nos deixa ávidos a sermos inertes ao amor. Não se preocupe parceiro, não desmitificaremos o amor. Não se preocupe parceiro, quem está do outro lado da corda continuará por lá, feliz ou infelizmente. Não se preocupe parceiro, as horas de reclusão romperá seus dias e te deixarão completamente embriagado, sem a ingestão de uma gota de álccol e as coisas parecerão foras de foco, nada mais real existe.

Era engano! Se preocupe parceiro, com os sinais a decifrar, com a sua neura, com sua lágrima que não você não quer deixar sair.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Pretérito mais-que-perfeito

Intimação

- Você deve calar urgentemente
as lembranças bobocas de menino.
- Impossível. Eu conto o meu presente.
Com volúpia voltei a ser menino.

Carlos Drummond de Andrade

(Boitempo I - Editora Record, página 10)


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pausas

Pois bem.
Pois bem!
Pois bem?
Pois bem, direi, freada, enquadrada,expressiva, dentro das normas.
Afinal, de pausas é feito o entendimento. Seria o momento de assimilação entre o dito e o pensado.
Ah, o pensado, como pausá-lo? Seria necessário bem mais que uma vírgula. Nem mesmo o derradeiro ponto final das horas, anunciando o fim do dia é capaz de freá-lo.
Mas do pensar pro falar existe e exige-se uma pontuação, qualquer que seja, para não meter os pés pelas mãos.
Hoje, sem mais pormenores formais, eu fico assim, calada pra não me expressar mal.
Não sei das pausas.
Não, sei das pausas.
Não sei das, pausas, o que mesmo?
Bobagem! Me faço valer do que você quiser interpretar.
Pausas são pausas, oras!
Pause-me, se puder.
Se puder, me pause.
Na semântica, na sintaxe, endireite seus quês, mas, poréns, ondes, onde quiser. Eu pauso. Vá, eu espero.
Tome-me pelo lado que quiser analisar. Mas no final, você sabe que, despida de pudores pontuais eu sou e eu fico, quase sempre.
Ponto não final, pelo menos não hoje.

A metade que desconheço

Sentou-se na cama com os pés para fora desta, de maneira que não tocassem o chão, tudo de maneira silênciosa, com o olhar baixo. Pôs-se a balançar as pernas de maneira suave, ficou nisso por um tempo, até que um impulso tomado por um certo constrangimento a fez ajeitar o corpo e os braços num movimento que fez parecer que iria se levantar de onde estava, mas não, usou essa posição para se apoiar, levantou a cabeça com o intuito de encontrar olhares e começou a falar.
- Gosto de me assentar assim, dá a impressão de que não cresci. Pra falar mesmo a verdade, esse modo de assentar faz com que me sinta livre. Sabe, eu sei que você sabe, eu sou mais razão. Posso sentir, falar, desejar, mas nunca ajo. No final é com os pés no chão que eu me faço na vida. E nessas horas, quando meus pés não tocam o chão, sinto que posso tudo, sinto que posso burlar meu consciente e agir com meus sentimentos. Por eu nunca ser assim, acho que gosto desta sensação de liberdade.
Um sorriso leve e meio sem graça apareceu em seu rosto, enquanto falava foi tomada por uma emoção, a qual não compreendeu. Fez-se silêncio. Agora, com o olhar centrado no outro olhar voltou a falar, um tanto sem graça.
- Você sabe demais sobre mim.
- E isso é ruim?
- Com você é diferente. (silêncio) Você está numa parte de mim onde eu, razão, não tenho muito controle. Você sabe demais. Eu quis que você soubesse e agora acho que tenho medo do que isso possa significar.
- E o que isso poderia significar?
- Você está numa parte de mim onde eu jamais entrei. Eu quis que você entrasse. O controle não é mais meu.
- Quer que eu saia?
- Quis que entrasse, mas nao sei como se volta, não conheço onde está.
- Então quer que eu vá.
- Não. Quero dizer, não sei.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dessine-moi

O de sempre?

Enquanto isso, nos palácios, eles cuidam de como o mundo andará, do que será das crises, dos empregos; alguma coisa acontecerá, e isto é mais certo que tudo. O de sempre.

Quer saber? Deixa como está para ver como é que fica. Os economistas dão conta da macro-econômica, os políticos encontram uma saída geo-política, os generais sabem dar ordens, os sacerdotes celebram cultos, as torcidas gritam gol, os filhos o seu dinheiro, e ela estará ali caso você precise.

O de sempre!

Que bobagem! Todo mundo sabe que o mundo tem governo e que o governo do mundo é a economia de mercado do mundo; e ela sabe disso, que você é a economia do mercado dela.

O de sempre.

Pior cego é aquele que quer ver. Pense nisto. Posso repetir?

Pior cego é aquele que quer ver!

O de sempre.

E de mais a mais, você sabe: o que será de sua velhice? Quem cuidará de você? De seu reumatismo, de sua úlcera? De sua solidão?

Quando a noite de hoje, a dos domingos, chegar, eleve suas mãos aos céus, mesmo que você não seja assim tão crente, porque de céu você entende.

O de sempre!

Lembre-se: filosofia é muito legal, poesia também, música então nem se fala, mas não são nada práticas, não servem para o porque, manda é a economia de mercado e de mercadinho. Isso que importa: enquanto você mantiver a portinha da quitanda aberta, tudo estará debaixo de suas asas, de uma forma ou de outra. Ninguém é burro. Fique tranquilo.

O de sempre!

Então, em homenagem a esse domingo de mercados cheios de graça, aqui vai uma crônica para festejar:

Era uma vez alguém que dizia amar alguém loucamente. E repetia:

- Eu te amo, mas…

Gostou?

Não vem bem a calhar?

São as melhores crônicas de domingo, as que começam assim e terminam assim:

- Eu te amo, mas…

Para sempre!

Quanto ao amor?

Ah! Que bobagem, porque o pior cego…

Mas, se apesar de tudo, apesar de tudo mesmo, você, que está indignado e sente-se, digamos, difamado (grifo meu, obviamente) com tudo isto e discorda, veementemente, do que falei (ou disse), então, meu caro, sua situação é um tanto desesperadora.

E, cá entre nós, sabemos bem o por que! Você e eu! E, neste caso, lembre-se bem que nossos domingos são crônicos, porque levianos.

Em nosso caso, meu caro, nossa crônica de domingo crônico é a seguinte:

Era uma vez alguém que acreditava no amor, loucamente, e dizia assim:

- Mas eu te amo…

Não vem mal a calhar? Descrer no amor. Então, dar de ombros e seguir dizendo, como se fosse um eco de si mesmo, porque ninguém estuca, ninguém escuta, estuca e escuta, ninguém mesmo:

- Mas eu te amava… poxa!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Metalinguagem sobre o título

Dos minutos excruciantes, dos dias que me esmagam é no aconchego de um lápis que consigo, efetivamente me sentir um ser livre. É nessa hora que sinto que tenho alma vegetativa, sensitiva e intelectiva. Principalmente sensitiva. Ter alma vegetativa é de cunho vital, para necessidades básicas, esta é intrínseca a mim; a alma intelectiva de um certo modo sou eu, minha "héxeis", meu caráter, minha ética estão comigo, independente de qualquer coisa. Mas a alma sensitiva, de alguma forma me afastei dela, dei menos atenção. Há muito não sinto. Mas quando perto de um lápis há a consciência de sentimentos. Nessas horas eu sou eu, naquilo de mais sublime, que eu me roubei.
Eu, eu desenho.